
Assim como já foi dito em um post anterior, a qualidade dos filmes nacionais está inteiramente a par com qualquer país do mundo. Hoje em dia, dizer que filme brasileiro é inferior a qualquer outro, é pura ingenuidade. O escolhido do ano para tentar uma vaga no Oscar 2008 é um grande exemplo disso. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é revigorante. Uma trama alegre mas que esconde um fundo bem triste. Disparidades difíceis de se fazer com eficácia, mas que o diretor Cao Hamburger o faz e prova ao mundo que o cinema brasileiro não se restringe apenas à Cidade de Deus.
[SINOPSE] Em 1970 o Brasil e o mundo pareciam virar de cabeça para baixo, mas a maior preocupação na vida de Mauro, 12 anos de idade, tinha pouco ou nada a ver com a proliferação das ditaduras militares na América do Sul ou com a Guerra do Vietnã. Seu maior sonho era ver o Brasil tri-campeão do mundo. Mauro se encontra naquele momento de transição da infância para a adolescência. É nesse ponto de virada que ele se vê obrigado a viver longe dos pais quando, por serem de esquerda, são forçados a viver na clandestinidade e deixá-lo com o avô. Mas algo inesperado sucede com seu avô. E o garoto fica sozinho sem poder avisar os pais. Quem acaba tomando conta de Mauro é Shlomo, o vizinho do avô, um velho judeu solitário, funcionário da Sinagoga. Essa convivência inesperada resulta, para ambos, num mergulho em mundos desconhecidos do qual emergem, cada um à sua maneira, bastante amadurecidos.Enquanto espera um telefonema dos pais, Mauro aprende a encarar uma realidade muitas vezes difícil e dolorosa, mas que tem seus momentos de alegria e descoberta. Ele se vê sozinho e repete assim, de certo modo, a saga de seus avós - imigrantes judeus - sobrevivendo num mundo novo. A partir daí, entram na vida de Mauro, além de Shlomo, o zelador da sinagoga com quem é obrigado a morar; a irreverente Hanna, pouco mais velha do que Mauro, com seu enorme talento para apostas e novos negócios; a jovem Irene, que incendeia a imaginação de todos os garotos do bairro; o Rabino, um fanático torcedor do Corinthians; Ítalo, filho de italiano envolvido em movimentos estudantis, Edgar, goleiro mulato do time do bairro, entre outros. Com seus novos amigos, Mauro divide, entre muitas outras coisas, sua paixão pelo futebol, as primeiras descobertas da sexualidade e seu desejo de recuperar a felicidade sufocada pela ditadura.
O roteiro, feito e revisado por 4 roteiristas, é belamente montado e inteligente. A utilização da paixão do menino Mauro pelo futebol e a adoção da Copa de 70 como fundo tema, foi espertamente cabível, logo que o alegre momento é ofuscado pela repressão da ditadura. Vê-se que esta era a intenção dos roteiristas e do diretor Cao, já que em diversos momentos, Mauro torce para o Brasil e em outros torce para que seus pais cheguem em seu fusca azul.
Aliás, a escolha de Michel Joelsas para o papel do menino foi um grande acerto. Com caras e bocas certas, Michel consegue conquistar o publico pela doçura e pela boa interpretação. Assim como a menina Daniela Piepszyk, que interpretada a geniosa Hanna, que a cada aparição, rouba a cena de uma forma talentosa. O filme é recheado de boas atuações, e surpreendentemente as melhores são de atores desconhecidos, como Germano Haiut, intérprete do excêntrico judeu Shlomo. Até uma breve, mas interessante, participação de Paulo Altran há na película.
Cao Hamburger merece todos os créditos do longa. Com este filme, o diretor prova sua facilidade e sua qualidade em trabalhar com crianças em filmes. Tendo um tema forte como a ditadura, Cao consegue suavizar com rostos infantis um tema histórico tão triste. Seu mérito se estende desde à escolha de músicas brasileiras na trilha sonora até as locações paulistas atuais mas que mantém o cenário de décadas atrás. Genial. Mesmo tendo acertado na escolha de Michel, acho que seria válido a escolha de um ator mirim com mais cara de brasileiro, mas é um detalhe.
O Ano... não tem grandes chances de entrar na disputa de melhor filme estrangeiro no Oscar. Mas tem mais chances do que teria Tropa de Elite, isso sem dúvida. O filme já tem em dvd, mas os cinemas brasileiros voltaram a exibi-lo, por isso, não percam. É o segundo melhor filme brasileiro do ano.
Nota: 9.0