
A aposta de cineastas em voltar a produzir longas baseados em musicais da Broadway, com o fascínio dos palcos transformado em exuberantes obras cinematográficas – como HairSpray, Dreamgirls e Chicago -, fez com que a decepcionante e previsível indústria de filmes americanos se reinventasse e fizesse do gênero musical mais mastigável à todas as camadas populares, o que é louvável. Mais louvável ainda é quando somos presenteados com bons musicais e com identidade própria. Esse é o caso de Across the Universe, dirigido pela competente Julie Taymor (Frida) e que tinha todos os elementos para se tornar um clássico, mas que escorrega feio na desordem do roteiro e na má edição final.
[SINOPSE] Uma história de amor num cenário ambientado na década de 60 em meio aos anos turbulentos de protesto contra a guerra, exploração da mente e rock 'n roll, o filme vai das docas de Liverpool ao universo criativo e psicodélico de Greenwich Village, das ruas tomadas pelos protestos em Detroit aos campos de morte do Vietnã. Os artistas namorados Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood), na companhia de um pequeno grupo de amigos e músicos, são atraídos pelos movimentos contrários à guerra e da contracultura que surgiam, com o “Dr. Robert” (Bono) e “Mr. Kite” (Eddie Izzard) como seus guias. Forças turbulentas fora do controle deles acabam separando os dois jovens, obrigando Jude e Lucy – contra todas as adversidades – a encontrarem um jeito de voltar um para o outro.
O interessante de Across the Universe, é a utilização certeira de certas músicas dos Beatles, que se encaixam perfeitamente em dados momentos e faz com que o filme tenha um sabor especial e nostálgico à nós fans da banda de Liverpool. Taymor se revela não apenas uma beatlhemaníaca como também uma brilhante conhecedora dos maus tempos que cercaram a população americana durante a Guerra do Vietnã, com destaque à profunda e sincera visão aos jovens da época. Por ser ambientado com um elenco jovem e com uma linguagem um tanto indie, o filme tem a sorte de ser inovador no sentido da plenitude do amor adolescente. As confusões interioranas, a preocupação com o meio, o desejo revolucionário e a vontade de fazer tudo dar certo (na vida e no amor), faz de Across the Universe um retrato fiel e histórico da juventude sessentista.
A escolha dos atores de certa forma foi notável. Julie, aliás, tem essa característica em potencial. Escolher um elenco digno e competente e que não traz tantos holofotes pessoais ao longa. Jim Sturgess e Ewan R. Wood são sinceros nas palavras e nas trocas de olhares, e sabem trabalhar em um romance – acreditem, por mais fácil que seja, atualmente é raro ver competência nesse gênero. O mais no elenco do filme fica por conta da talentosa Dana Fuchs, que aparece bem pouco mas se destaca. Felizmente não há falhas com atuações, e nem pudera ter, já que a diretora se confundiu em peso e grau com as constantes aparições/sumidas de personagens. O exagero prevaleceu nesse sentido e fez com que o longa se transformasse em uma promissora história sem nexo. A utilização de personagens como Prudence (que pelo visto só foi posta no filme devido à música de mesmo nome dos Beatles), que aparecem-somem-aparecem novamente sem explicação cabível alguma, é frustrante e decepcionante. Outro exemplo foi Bono Vox aparecendo por dez minutos e sem mais é retirado de cena de forma instantânea e inexplicável.
O filme conta com um jogo de câmeras bem feito e com uma fotografia incrível. Utilizar momentos de psicodelia, além de sublime, seria de grande acerto no longa. As imagens são fantásticas e isso é incontestável. Entretanto, sabendo que este recurso é no mínimo fascinante aos telespectadores, Julie novamente exagera na dose e deixa no filme takes que poderiam ser descartados pela falta de ligação com o filme. O trabalho de edição parece ter sido corrido a ponto de deixar cenas desnecessárias à visão de cinéfilos atentos.
Outro “possível” erro, foi a utilização das dezenas de músicas dos Beatles sem cortes. Decerto que é um musical, mas o proveito poderia ser inexplicavelmente maior caso houvesse um engenheiro de som competente na maravilhosa trilha. Isso fez com que Across the Universe se tornasse um filme demasiado longo e que foge ao estereotipo de popular - o que não é uma qualidade.
Julie Taymor tinha todos os ingredientes para fazer de Across de Universe o melhor filme de 2007, entretanto erra a mão e nem ao menos faz do longa-metragem um musical cinematográfico competente e maravilhoso – que é como ele deveria ser no mínimo. Across the Universe nem de longe passa despercebido, é um filme carismático, inteligente e competente, imperdível até, mas incomoda com tantos erros visíveis vindo de uma grandiosa diretora que jogou um possível trabalho extraordinário no acaso do comum.
Nota: 8.5
Dica do Post:
Acometido pela vasta (e brilhante) obra de Ella Flitzgerald e Nina Simone, me perdi um pouco no gênero que mais me identifico: o bom e velho rock. Quase que deixo de ouvir um dos discos mais bem feitos de 2008 até agora:
Accelerate - R.E.M. (4estrelasde5)
A banda (imortal por Losing My Religion), extrapola suas barreiras e inova a carreira com este fabuloso disco. O melhor deles nesta nova década. O R.E.M. volta a suas raízes e nos presenteia com o velho e ótimo power/rock/pop que tanto brilhou em sua carreira na década de 90. E não pensem vocês que escutarão um som já passado e enjoativo, o interessante de Accelerate é a facilidade com que o som funciona no decorrer do álbum, partindo de um prisma antigo - por assim dizer-, e chegando aos dias atuais, com uma baixo e uma guitarra enfurecida. Quase inacreditável!