quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cisne Negro (Black Swan – 2010)

Conhecendo a filmografia de Darren Aronofsky, nota-se que sua paixão pela obsessão, seja ela pelas drogas (Requiém Para um Sonho), pela razão (π) ou mesmo pelo amor (Fonte da Vida), é o calor propulsor para jornadas homéricas e objetivas em busca de um lugar comum entre o desejo e a satisfação. Em Cisne Negro o agente propulsor é o mesmo, aqui enquadrado na perfeição. Aronofsky, em sua própria fixação, cria a sua verdadeira fera, perdida entre a delicadeza e a beleza de um meio onde ser impecável já não basta, e a ousadia se torna a grande chave para o sucesso.

A fera chama-se Nina, interpretada gloriosamente pela israelense Natalie Portman, que constrói uma bailarina correta e exigente consigo mesma. A perfeição e a exatidão são irrefutáveis. Seus gestos são delicados, certeiros, líricos, assim como devem ser os de uma bailarina. Nina, então, ganha o que parece ser um sonho: o duplo papel do cisne branco e negro em uma nova adaptação de “O Lago dos Cisnes” – Tchaikovsky.

Nina é uma exímia bailarina para interpretar o Cisne Branco. Suave como deve ser uma dama, correta na dança, delicada e sutil no sorriso. Entretanto, o papel é duplo, e a bailarina precisa encontrar em si mesmo a convicção certeira do despudor, da maldade irônica de uma verdadeira cisne negra. A desfragmentação psicológica vivida pela personagem em busca desta característica que falta, é crescente e cruel. Com a chegada da novata Lily (Mila Kunis), as coisas só pioram, já que a ousadia e a rebeldia – além do talento – são os sobrenomes desta garota, uma visível cisne negra. Com isso, o desespero emerge em Nina e a possessão por conseguir a perfeição do personagem torna tudo extremamente drástico.

Aronofsky é capaz de sugar os mais puros sentimentos, sejam eles bons ou ruins de seus personagens, sempre muito bem aproveitados. Em Cisne Negro, Natalie é rodeada por estrelas que brilham a cada cena. Seja com uma mãe (Barbara Hershey) que luta com a inveja e frustração de sua filha ser o que ela nunca pode ser. Ou de um talentoso diretor de artes (Vincent Cassel), que tenta, de todas as formas, injetar um pouco de desejo, de volúpia, de maldade na frígida Nina. Sem esquecer também da grata surpresa proporcionada pela personagem de Wynona Rider, Beth, uma bailarina de sucesso substituída pela idade e pelos excessos, responsável pelo esclarecimento de que não existe perfeição, apenas cobranças. Frisa-se também a excelente atuação de Mila Kunis, dona do personagem Lily, que em todos os momentos serve, grandiosamente, como respaldo adverso ao personagem de Portman. Lily protagoniza cenas surreais com uma química eloquente. Portman se apóia com força em Kunis, e isso é arrepiante e ao mesmo tempo delicioso de se ver.

A montagem arrebatadora de Andrew Weisblum faz com que nossos corações palpitem de acordo com o andamento do espetáculo O Lago dos Cisnes. Desde o encantador prólogo, com um jogo de câmeras que dança junto à uma Natalie honestíssima com o ballet, até a virada surreal para o ato dois, trabalhados aqui em comunhão a um Aronofsky totalmente ciente do que se passa com uma juventude transviada – ou não – deste atual século.

A fotografia e a sonoplastia surrealistas remetem à um David Lynch coeso, e são responsáveis pelas mazelas psíquicas da personagem, com seu psicológico afetado pela pressão e a vontade sedenta de ser grande.

Mais uma vez, o americano Darren Aronofsky expõe que obsessões não são garantias de sucesso. Com um final magistral, ele entrega que a perfeição é tão impossível de se conseguir quanto à vida eterna. Estudioso ávido destes novos seres-humanos, o diretor entrega outra obra-prima, assim como todas de sua filmografia. As dezenas de prêmios conquistados apenas reforçam a formação de outro clássico. Natalie está no papel de sua carreira. A atuação de Mila Kunis é a prova do surgimento de uma grande estrela. E Wynona Rider afirma que ainda pode brilhar muito. Estes pequenos detalhes fazem com que Cisne Negro feche com chave de ouro a era cinematográfica da última década. É aguardar e torcer para que a arte sempre prevaleça, e que possamos sempre contar com talentosos objetos, como este, um privilégio.

NOTA: 10,0

4 comentários:

O Antagonista disse...

Não posso negar que tenho uma quedinha pela Srta. Portman... Ai, ai... Desde que ela desfilou por uma calçada de Londres, em câmera lenta, ao som de Blower's Daughter, no filme closer, que entrou para minha listinha de mulheres que pretendo comer antes de morrer! rs....

★★ GIZA ★★ disse...

OLÁ
ADOREI SEU BLOG E ESTOU SEGUINDO
ME SEGUE?
WWW.AMORIMORTALL.BLOGSPOT.COM
BEIJOS

[ rod ] ® disse...

O filme é perfeito. Conceituadamente agressivo nos mínimos olhares. Palavras bem colocadas nas personalidades controversas. E a Natalie magra e delicadamente forte em expressões. Assisti ontem e recomendo! Merece ser visto para agregar valor a ela. Preferida desde Closer... Sra Nina por Alice!

Larissa Bohnenberger disse...

MA-RA-VI-LHO-SO! O melhor dos filmes que assisti desde o início do ano. Aliás, sou fã do trabalho do Aronofsky. E a Natalie Portman realmente deu um show de interpretação. Espero que realmente leve o Oscar, pois está merecendo.

Bjs!