Isso mesmo. Parece estranho falar sobre isso, mas é o que acontece. Só pegando como exemplo o caso anterior, mesmo que o secretário-geral do Condepe, Ariel de Castro Alves, estivesse certo quanto ao dizer que o acontecido tinha sido um bizarro exemplo do que estamos nos transformando por causa da violência, é preocupante a garra com que ele falou que iria apurar o caso. Decerto que foi um crime sim, mas comparado à casos bem mais tristes e cruéis que acontecem contra a “sociedade justa”, em que punições e apurações são bem levianas, é revoltante tal ímpeto ao apurar o caso.
E se pararmos para pensar, isto acontece muito, principalmente em informações fornecidas pela mídia. A retratação do criminoso como mais um “vacilo” da sociedade moderna, tornou-se praxe na comunicação social, sendo ainda passada em letras de música, filmes de sucesso e dramalhões de horário nobre. Não é muito incomum ouvirmos que certo homem tornou-se bandido pois não teve oportunidade na vida. É engraçado ouvirmos isso, sério. Imaginem se todos os miseráveis deste país se tornassem bandidos? Todos sabem a resposta.
Esse é um dos principais erros que são passados à nós como História. A figura do traficante que sempre conviveu com aquele mundo e se tornou apenas mais um produto do meio, pois as portas sempre estiveram fechadas à ele, é passada continuamente à nós.
Assim, questões como a diminuição da maioridade penal e a pena de morte são assuntos considerados muito “cruéis” para serem tratados pelo Estado, que se sai como um órgão esperançoso demais, pois acredita que o assaltante que matou dois, ou aquele traficante que matou sei-lá-das-quantas, tem conserto. Deste modo, o Estado funciona mais como uma “retificadora incompetente de vidas”, em que promete que cada individuo preso, sairá com as condições necessárias para ser tornar um cidadão do “bem”.
Assim, isso torna-se um dos principais pontos fracos do nosso Estado. A preocupação em achar um motivo pelo qual tal homem se transformou em bandido e esquecer das tragédias cometidas por ele, já se transformou rotineiro nas apurações de casos e comentários sobre crimes. É impactante demais para acreditar, mas é o que anda acontecendo em nosso país, fazendo com o que o povo tome as rédeas da situação e derrame sangue culpado.
Muitos creditam a causa da violência à sociedade, o que é muito fácil de ser feito, uma vez que a sociedade é algo muito abstrato, que não tem um centro, sendo formada por um conjunto de indivíduos. Dessa forma, quando se fala em mudar a sociedade, se fala em mudar cada indivíduo para atingir o objetivo de uma forma geral. Portanto a culpa vai para a sociedade e não para a ineficiência do Estado em gerir suas riquezas, que são arrecadadas dos cidadãos.
Com isso vem em seguida a justificativa da desigualdade social. Fazendo a relação equivocada de Pobreza = Violência. O que na prática não se justifica, uma vez que vemos no Brasil que a violência não é exclusividade dos pobres. Os políticos, que tem grande poder aquisitivo e muitas influências, roubam milhões dos cofres públicos, e na maioria das vezes prejudicam não só uma pessoa, mas centenas com o dinheiro que não foi para a saúde, por exemplo. Há também muitos empresários que cometem crimes em busca de dinheiro ou poder, e eles não são pobres! A justificativa da pobreza só estaria correta sem que todos que roubassem fosse exclusivamente para sobreviver, comprar comida, e não para enriquecer.
Nosso país sofre de uma Anomia muito grande. Há um constante desrespeito das leis instituídas, e isso é muito comum de ver, basta o ato de avançar o carro no sinal vermelho, estacionar em local proibido, pichar paredes ou qualquer outra atitude que vá ao contrário do que a lei determina. Esse desrespeito cresce na medida que é tomado como bom exemplo por um número maior de indivíduos.
Muitas marcas ainda vem da época da ditadura, quando o conjunto de regras era maior e mais controlado, porém de uma forma totalitária, o que é muito perigoso. Nesta época foi criada a imagem do policial malvado e do bandido Hobin Wood, que é bom e vira ladrão para combater “as injustiças”. Partido dessa ótica vemos que o bandido é idolatrado, enquanto o policial, que está para manter a ordem, é tido como o vilão da história. Obviamente a polícia deve agir com a inteligência, da forma menos violenta possível, mas as vezes é preciso de a força para manter a ordem, e quando isso é feito muitas vezes é condenado, quando a mídia e o Estado enaltecem o criminoso e deixam o cidadão honesto desprotegido.
Não há lugar para os presos no Brasil, e nem uma forma de reeducá-los para voltar a convivência na sociedade. Isso se deve as poucas penitenciarias, leis frouxas e falta de um programa carcerário eficiente. O sujeito é preso, amontoado e ainda consegue controlar o crime de dentro da cadeia. Deveríamos fazer igual a países que colocam os presos para trabalhar e gerar seu próprio sustento, realizar obras públicas e pagar sua dívida com a sociedade, esta que só aumenta a cada dia, uma vez que a estadia do delinqüente é paga pela própria população.
Só sairemos rumo a algum destino melhor quando remunerarmos bem os policias e colocarmos os bandidos para trabalhar. Felizmente com as recentes atuações da Polícia Federal, que capturam tanto corruptos da elite quanto traficantes do morro, a imagem da instituição tem melhorado. Assim poderemos sonhar com um dia em que as crianças prefiram ser policiais à virar traficantes. Um dia onde se respeite a lei e tenha a os órgãos públicos como solução e não como causa de colapsos sociais.
Post escrito em parceria com o blogueiro Fernando Teixeira.